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Sua terra não deveria ser "nossa terra"?
Sua vida e minha vida não deveria ser "nossa vida"?
Sua religião deveria matar?

"Toda língua é fascista", declarou Roland Barthes em seu discurso de posse no Collège de France. O que o crítico-escritor queria dizer com esta hipérbole é que toda língua constitui um sistema de regras duras, que se põem acima da vontade e da fantasia de cada um: quem disser que "mesa" é "cadeira" corre o risco de parar no Pinel. A menos que seja poeta ou artista, eternos combatentes do "fascismo" lingüístico.
Vamos tomar ao pé da letra, porém, essa hipótese, e imaginar um tribunal capaz de cassar o uso de determinadas palavras. Por exemplo, a palavra "raça" que, como demonstram a genética e a antropologia modernas, não existe se aplicada à espécie humana. Raça é conceito decorrente do patrimônio genético de bicho, não-falante. Nada a ver com o indivíduo capaz de se referir semanticamente a "raça", portanto, o homem. Tal tribunal seria compelido a banir essa designação tão destituída de referência humana quanto o unicórnio no reino animal. O problema é que esse tribunal não existe. Quem legisla sobre a vida da língua é a comunidade de falantes em suas variadas apropriações dos vernáculos, segundo as diferentes situações e posições. Só a literatura é que, ao ficcionalizar a língua, nos dá a prazerosa ilusão de um idioma único, sem diferenças de classe no discurso. Na realidade lingüística das comunidades, raça pode muito bem continuar existindo apesar da falência do conceito, simplesmente porque é uma noção ainda forte no imaginário social. Se raça não existe, há certamente a relação racial, ou seja, o imaginário coletivo quanto a supostas diferenças no patrimônio genético dos seres humanos. Tente convencer uma consciência racialista de que uma coisa é o fenótipo (diferença epidérmica), outra o genótipo, ou então de que não há diferença significativa entre o patrimônio genético de um alemão e o de um nigeriano, e você verá a força do tropismo comunitário na direção do próprio umbigo de crenças e preconceitos. E verá, assim, o que Barthes quis enfatizar com sua hipérbole. Estou tentando indicar aqui que é possível desmontar intelectualmente a noção de raça e até mesmo superar a segregação racial (como se deu nos Estados Unidos e na África do Sul), mas, dificilmente, o preconceito. Este persiste sob a plena vigência de uma modernidade liberal do mercado, apesar de serem vários os autores que assinalam a incompatibilidade da sociedade tecnológica e mercadológica com o velho preconceito racial. O americano Paul Gilroy, por exemplo, sustenta que aspectos de "raça", como tem sido entendida no passado, "já estão conjurados pelas novas tecnologias do self e da espécie humana". Ele acrescenta: "As velhas e modernas economias representacionais, que reproduziram a raça subdérmica e epidermicamente, estão sendo hoje transformadas de um lado pelas mudanças científicas e tecnológicas que se seguiram à revolução na biologia molecular, e de outro por uma transformação igualmente profunda nos modos como os corpos são postos em imagem. Ambos têm extensivas implicações ontológicas". Mas apesar dessa aparente evidência, persiste alguma dúvida quanto à possibilidade de sair do preconceito, em sentido lato: de julgamentos que servem de base para que possamos crer em alguma coisa. É o que assevera Wittgenstein: "Nós não aprendemos a prática do julgamento empírico, aprendendo regras; o que nos é ensinado são julgamentos, assim como seu laço com outros julgamentos"
Independentemente da questão racial, o preconceito tem raízes fundas e extensas. Faz parte de toda operação de conhecimento, do modo como adquirimos um saber qualquer. Assim, especulando sobre como chegamos a dizer que sabemos ou temos certeza de alguma coisa, Wittgenstein mostra, em sua reflexão sobre a "certeza", que "toda verificação do que se admite como verdade, toda confirmação ou invalidação acontece no interior de um sistema". Adiante, diz: "O sistema não é tanto o ponto de partida dos argumentos quanto o seu meio vital". Ele toma como exemplo o adulto que diz a uma criança já ter estado
E claro, aprender apóia-se naturalmente
resquício do velho discurso colonial e endocolonizador. Ao fascismo da língua não se resiste apenas com a bela alma das palavras, nem com o discurso acadêmico do respeito às diferenças. Torna-se imperativo relativizar a lógica do sentido (e das diferenças) e começar a pensar na lógica do espaço que põe em pauta a prática das aproximações concretas. O mero conceito de "pós-racial" não nos faz sair do racismo, assim como o conceito de classe social não esgota a relação racial. Um bom começo de ação concreta pode ser a colorização (por cotas, pela lógica aproximativa dos lugares) dos espaços de colonização.
MUNIZ SODRÉ, presidente da Biblioteca Nacional, é professor da UFRJ e escritor
O velho Mestre pediu a um jovem triste que colocasse uma mão cheia de sal em um copo d'água e bebesse.
Qual é o gosto? - perguntou o Mestre. -'Ruim' - disse o aprendiz.
O Mestre sorriu e pediu ao jovem que pegasse outra mão cheia de sal e levasse a um lago.
Os dois caminharam em silêncio e o jovem jogou o sal no lago. Então o velho disse:
- Beba um pouco dessa água. Enquanto a água escorria do queixo do jovem o Mestre perguntou:
- Qual é o gosto? - Bom! disse o rapaz. - Você sente o gosto do sal? perguntou o Mestre. - Não disse o jovem.
O Mestre então, sentou ao lado do jovem, pegou em suas mãos e disse
- A dor na vida de uma pessoa não muda, mas o sabor da dor depende de onde a colocamos.
Quando você sentir dor, a única coisa que você deve fazer é aumentar o sentido de tudo o que está a sua volta.
É dar mais valor ao que você tem do que ao que você perdeu. Em outras palavras
É deixar de Ser copo, para Tornar-se um Lago.
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Ouvir Estrelas "Ora (direis) ouvir estrelas! Certo |

Assim como te amei no meu mortal corpo,
ainda assim te amo sem ele!


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